terça-feira, abril 27, 2010

A oceanografia do (des)cobrimento

Tudo começou em um 1º de Janeiro de 1502, quando três Naus lusitanas adentraram a Baía de Guanabara, impulsionados pela fase de frio intenso e enormes nevascas que assolavam a Europa e a Ásia, desvendando  assim a imagem desse paraíso tropical para o mundo. Naquele longíquo verão, as águas da Guanabara foram palco de um choque de dois mundos, de duas concepções de vida, de dois universos distintos. Dentro das enormes embarcações impulsionadas pelo vento, portugueses, agentes do mercantilismo europeu, preocupados em conquistar novas terras e mercados para a produção de mercadorias com valor de troca. Já nas frágeis canoas e ubás, movidas a braços fortes, estavam os nativos desse paraíso, organizados num sistema primitivo de socialismo, totalmente despreocupados com a acumulação de bens e riquezas, retirando da Natureza apenas o necessário para o sustento.

A Natureza era pródiga, bela, exuberante, majestosa. O mar colidia com os pontões e costões que emolduram a Guanabara. Os manguezais se estendiam por quase todo o litoral. Dezenas de lagunas e brejos alinhavam-se atrás das restingas. tangenciadas por praias de areia extremamente claras. Pitangueiras, cajueiros, orquídeas e cactos enfeitavam as dunas e restingas. 

Este cenário paradisíaco, tanto decantantado em prosa e verso, não durou muito tempo. Primeiro, veio a devastação do pau-brasil, posteriormente as preocupações de cupação e defesa, que resultaram inclusive na fundação de nossa Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro, continuando com os ciclos econômicos da cana-de-açúcar, mineração, café e finalmente a industrialização, a região foi sendo ocupada, e a mata sucumbindo.

O sítio geograficamente impróprio para acolher uma ocupação permanetemente - e que tinha  inicialmente a função defensiva-, passa a ser uma cidade portuária e comercial. Esta, para crescer, soterrrou estuários, enseadas, lagunas, brejos, manguezais (qualquer ligação com os bairros mais afetados pelas nossas atuais enchentes não é mera coincidência, não, tá?), e ainda arrasou morros e ilhas.

As manadas de baleias, entre jubartes, cachalotes e espardates, que tanto adentravam as águas da Guanabara (vide pintura abaixo, por Leandro Joaquim, 1780), foram impiedosamente caçadas, em larga escala, fazendo com que este cetáceo tão abundante desaparecesse da Baía.

Dessa atividade predatória resultou inclusive o nome de um dos lugares atualmente mais visitados por turistas no RJ. A Ponta do Arpoador, tinha a função de observatório da chegada das manadas de baleia, onde, muitas das vezes eram arpoadas dali mesmo. Arpoadas e levadas para a Ponta da Armação (Niterói) eram esquartejadas a machado, e delas se extraiam a carne para a alimentação, o óleo para a iluminação da cidade e a borra, chamada também de galagala, que misturada com a cal do reino (concha moída), formava um excelente cimento, muito utilizado nas construções da época.

O governo português monopolizou a caça até meados do sec XVII, entregando-a depois a particulares, por meio de contrato de armação O mais célebre dos armadores foi um Sr. chamado Brás de Pina, que enriqueceu tanto, às custas do extermínio de baleias, que pode adquirir vastas terras na região onde hoje existe um bairro que ostenta seu nome.

Segundo o Prof. Elmo Amador, a Baía de Guanabara é emblemática, uma genuína representante dos frágeis e reprodutivos ecossistemas costeiros tropicias, que resultantes de uma longa evolução, foram submetidos à uma rápida degradação ambiental e social. A Ganabara representa o personagem principal de uma história que permite o julgamento do desatre da colonização e da dominação capitalista dos países do Terceiro Mundo, com a subjugação dos seus habitantes e a destruição de sua natureza.



segunda-feira, março 01, 2010

445 anos de Maravilha !

Não podia passar em branco o aniversário da Cidade Maravilhosa.

Hoje, 1º  de março de 2010, a cidade do Rio de Janeiro - originalmente fundada por Estácio de Sá, com o nome de São Sebastião - comemora 445 anos de fundação.

Fica aqui a homenagem do Blog, através da foto (acima) do Morro Cara de Cão (proeminência adjacente ao Pão de Açúcar), sítio original da cidade, onde foram edificadas as primeiras instalações, com o intuito de funcionar como trincheira contra os ataques dos índios tamoios, então aliados dos franceses.
 
"Para que El Rei, a Pátria, o Brasil e o Mundo todo conheçam o nosso destemido valor, levantamos essa cidade que ficará por memória do nosso heroísmo, e exemplo as vidouras gerações, para ser a rainha das províncias e o empório das riquezas do mundo". (Anchieta, 1565)

Foto: Gustavo Bastos

sábado, janeiro 23, 2010

Consumo de nadadeiras


Voltemos a esse grave e silencioso problema ecológico: a ameaça aos tubarões ...
Segundo uma pesquisa de âmbito nacional, encomendada pelo Instituto Ecológico "Comercial" Aqualung, 37% dos 1.400 entrevistados disseram que consomem carne de tubarão (na maioria das vezes Cação). Destes, 58% fazem esse consumo em casa (19% mensalmente e 58 % eventualmente). Somente 17% dos entrevistados afirmaram já ter consumido nadadeira (e não barbatana, como esse tal instituto de finalidade duvidosa insiste em denominar) de tubarão. 
Entretanto, a pesquisa apontou uma enorme diferença regional: enquanto todos os entrevistados cariocas afirmaram NUNCA terem comido nadadeira e seus derivados (principalmente a sopa), 68% dos entrevistados paulistas afirmaram que já comeram.
Uma possível explicação para tal diferença é a influência exercida pela população oriental em SP, uma vez que são eles os grandes consumidores da maldita sopa de nadadeira, induzidos pelo mito de que é um prato afrodisíaco.
Um outro dado de extrema importância mostrado pela pesquisa foi que 57% (mais da metade) dos entrevistados não sabia que a pesca descontrolada e excessiva está proporcionando um vertiginoso declínio nas populações de tubarões em todo o mundo (só aqui no litoral brasileiro, 43% das espécies estão inclusas na lista das ameaçadas de extinção). 
Previsivelmente, mais de 60% dos entrevistados não soube dizer qual é a importância dos tubarões para o equilíbrio da vida nos oceanos e quais seriam as consequências diretas de sua extinção. No entanto, felizmente, 80% dos entrevistados, diante da realidade apresentada, admitiram rever seus conceitos e seu consumo de cação.
Então, mesmo que você não tenha sido entrevistado (o que é muito provável), reveja os seus !

quinta-feira, dezembro 24, 2009

As montanhas flutuantes de gelo


"...isso é apenas a ponta do iceberg". A expressão utilizada quando queremos explicar que o problema visível é apenas uma pequena manifestação de um enorme problema encontra uma fundamentação científica.

Os iceberg (= montanha de gelo) consistem em enormes blocos flutuantes de gelo que se desprendem das calotas polares e vagam pelos oceanos. O B-15 (foto clicada em 2000, ao lado) representa a maior "pedra de gelo" já registrada e possuia 295 Km de comprimento,  37 Km de largura, 11.000 Km2 de área superficial e massa estimada em 3.000.000.000 (3 bilhões) de toneladas.

Como eles são formados basicamente de água doce, e já que a densidade da água pura é de 920 Kg/m3, os icebrgs flutuam na água salgada, onde a densidade é levemente maior (em média1025 Kg/m3). Por isso, somente a 10ª parte (1/10) da montanha gelada fica visível acima da superfície - vai depender do seu tamanho e da densidade da água em que ela flutua.

Fazendo uma analogia, a parte emersa do bloco de gelo significa o problema aparente, aquele que tá se mostrando naturalmente, enquanto a parte submersa do bloco representa a parte obscura do problema, aquela que temos que mergulhar fundo para conhecê-la.

Salve a sabedoria popular !






terça-feira, dezembro 15, 2009

Fazer um céu

pelo saudoso gênio Mario Lago

Fazer um céu com pouco a gente faz.
Basta uma estrela,
Uma estrela e nada mais.

Pra ter nas mãos o mundo
Basta uma ilusão.
Um grão de areia
É o mundo em nossa mão.


Sonhar é dar à vida nova cor,
Dar gosto bom às lágrimas de dor.
O sol pode apagar, o mar perder a voz,
Mas nunca morre um sonho bom dentro de nós.

domingo, novembro 29, 2009

Salvem as baleias.... mas os tubarões também !

Será que alguém consegue visualizar perfeitamente o significado de um intervalo de tempo equivalente á 400 milhões de anos? Ou melhor, será que alguém consegue perceber o quanto um grupo animal consegue evoluir nesse mesmo período?
Pois bem. O Tubarão, injustamente e provavelmente o animal mais temido do Planeta, representa o resultado vivo desse tempo de evolução, expressando assim o incomparável nível "tecnológico" que a natureza pode atingir.

Graças ao filme Tubarão - criado em 1975, dirigido pelo hoje renomado diretor cinematográfico Steven Spielberg, com o nome original Jaws, baseado em romance de mesmo nome de Peter Banchley, que narra a saga de um tosco "robô-tubarão-branco-assassino", que aterroriza a população de uma cidade do litoral norte-americano - a enorme maioria da população mundial tem medo, chegando a algums pessoas apresentarem verdadeiro pavor desses animais (Selachofobia).
Dados estatísticos mostram que a ocorrência dos tão temidos ataques a seres humanos são exageradamente amplificadas, uma vez que animais como corcodilos, serpentres marinhas, hipopótamos, abelhas e até os nossos melhores amigos caninos, são responsáveis por um maior número de ataques fatais do que os tubarões.



O que muitos consideram um brutal assassino, nada mais é do que um predador quase que perfeito, que possui eficientes adaptações fisiológicas, comportamentais, hidrodinâmicas, sensoriais, reprodutoras, entre outras mais, que lhe concedem o degrau mais alto na "escada alimentar", um lugar privilegiado na teia trófica marinha. Talvez a espécie que melhor respresenta essa evolução "tecnológica" seja o Tubarão Branco (Carcharondon carcharias). Seu corpo fusiforme e de grande robustez (pode medir até 8 m e pesar até 2 ton), associado ao formato cônico do focinho, ao formato de suas nadadeiras e a presença de um pedúnculo caudal, lhe conferem uma capacidade de atingir enormes velocidades de locomoção. Seus dentes possuem cúspede em formato de pirâmide e são revestidos por 3 camadas de esmalte. Estima-se que um indivíduo adulto utilize, ao longo de todo o seu ciclo de vida, até 3 mil dentes. Isto porque eles não fixos por raízes, e graças ao sitema de "esteira-rolante de dentes", são facilmente substituidos quando perdidos no ato da mordida.
Aliás, as mordidas são ainda mais potencializadas por uma adaptação na mandíbula do tubarão branco, uma vez que o maxilar superior é unido ao crânio por um tendão frouxo - não fundido a ele, como o nosso -, o que permite uma maior abertura e a projeção da mandíbula.
Outro importante "equipamento", naturalmente "instalado" no focinho do Great White Shark, consiste em um conjunto de terminais nervosos, chamados de Ampolas de Lorenzini, capazes de captar sinais eletromagnéticos de baixíssimas frequências, o que os auxilia tanto na localização e identificação da presa, quanto na orientação nas grande migrações, características desta espécie.

Seu olfato funciona tão bem que é capaz de detectar sangue na água do mar a uma concentração de 1 ppm (parte por milhão). Sua audição, responsável pela detecção de vibrações de baixas frequencias, lhe permite perceber um peixe debater-se a uma distância de 250 a 600m. Já sua visão, segundo a maioria dos estudiosos, não funciona bem à grandes distâncias, ficando sua precisão restrita a, no máximo, 15 metros. Entretanto, mesmo assim, existe uma menbrana nictiante que proteje os olhos contra um possível ferimento causado por uma presa abatida ao se debater.


Mesmo com todas essas e dezenas de outras vantagens evolucionais, o Grande Tubarão Branco encontra-se classificado como VULNERÁVEL, na lista de espécies ameaçads de extinção, graças, justamente e certamente, ao animal mais perigoso do Planeta: o Homem. Dentre todas as formas de pesca predatória e/ou acidental, cabe destacar a mais cruel, conhecida como finning. Barcos pesqueiros de todo o mundo, impulsiondaos pelo mercado gastronômico - que cobra fortunas pelo "afrodisíaco" prato de sopa de nadadeira de tubarão - capturam-no e cortam TODAS as nadadeiras do animal e o jogam, AINDA VIVO, de volta ao mar. Como o tubarão não tem a capacidade de "sugar" a água para fazer a troca gasosa (respiração), e como ele não possui uma vesícula gasosa (erradamente conhecida como "bexiga natatória"), dispositivo este responsável pela flutuação dos peixes, o animal tem que permancer em constante movimento para respirar e não afundar. Sem as suas precisosas nadadeiras, ele afunda e agoniza no fundo até a morte por afogamento.

Então fica o material para reflexão: Quem é mais perigoso pra quem?

sábado, outubro 31, 2009

Mitologia havaiana & geologia marinha



Toda mitologia tem a ver com a sabedoria da vida, é relacionada com uma cultura específica,  e numa época específica. Tem o papel de integrar o indivíduo à sociedade e a sociedade à natureza, funcionando como uma força harmonizadora. A cultura havaiana, talvez seja a que melhor se encaixa nesse contexto. A escritora Leinani Melville, em seu livro "Children of the Rainbow", diz que a mitologia havaiana fala no desaparecimento de um "enorme continente" chamado Mu, e que as atuais ilhas são os picos das montanhas existentes naquele continente agora submerso, partido em pedaços por intensos terremotos, destroçado por maremotos de ondas gigantescas, despedaçado por erupções vulcânicas.

Embora James Churchward, escritor britânico autor do livro "O Continente Perdido de Mu" , descreva esse tal continente como tendo 9.600 Km de Leste a Oeste e 4.800 Km de Norte a Sul, acredito eu, que esse desaparecimento pode ser explicado pela teoreia dos Hot Spots (pontos quentes). Postulada pelo geofísico canadense Jonh Tuzo Wilson, essa teoria explica a existência de cadeias de vulcões formando linhas que coincidem com o sentido de deslocamento da Placa do Pacífico, sobre a qual se formou o arquipélago havaiano. Nesta regiões os vulcões indicam a passagem da crosta oceânica sobre uma fixa pluma de material magmático (hot spot), porveniente do manto, que ao ascender à superfície origina sucessivos edifícios vulcânicos.



Um outro bom exemplo de ocorrência desse fenômeno nautural é mostrado pela formação das Ilhas Samoa, também no Oceano Pacífico, só que no hemisfério sul.


Ilustrações adaptadas de imagens do Google Earth